A cirurgia de catarata remove a lente natural do olho — chamada cristalino — quando ela fica opaca com o tempo, e a substitui por uma lente artificial transparente. É feita com colírio anestésico, dura cerca de 15 a 20 minutos por olho, e é uma das cirurgias mais realizadas do mundo. Abaixo, 16 perguntas que aparecem quase toda semana na consulta, em linguagem direta.

1. O que é a cirurgia de catarata?

A cirurgia de catarata remove a lente natural do olho — chamada cristalino — quando ela fica opaca com o tempo, e a substitui por uma lente artificial transparente. A lente artificial é implantada permanentemente dentro do olho, não precisa de manutenção nem de troca, e estudos de longo prazo mostram durabilidade de mais de 25 anos.

É a cirurgia mais realizada do mundo: cerca de 28 milhões por ano globalmente, e em torno de 700 mil por ano no Brasil. Apesar da estatística, a decisão de operar nunca é automática — é feita quando a catarata começa a atrapalhar a vida da pessoa, caso a caso.

2. A cirurgia de catarata dói?

Não. A cirurgia é feita com colírio anestésico — sem agulhas perto do olho, sem anestesia geral. Você fica acordado durante o procedimento, mas não sente dor. É considerada uma das cirurgias mais seguras que a medicina moderna realiza.

Algum desconforto breve nos primeiros dias depois da cirurgia, controlado com colírios, é o que costuma acontecer. Sensação de cisco no olho, leve sensibilidade à luz e lacrimejamento são esperados e costumam passar em poucos dias.

3. Quanto tempo dura a cirurgia?

A cirurgia em si dura em média 15 a 20 minutos por olho. Somando a preparação (dilatação da pupila e anestesia em colírio) e o tempo de descanso no centro cirúrgico, o processo todo leva cerca de 3 a 4 horas — da chegada à alta. Internação não é necessária: você vai para casa no mesmo dia.

4. Qual é o tempo de recuperação?

A melhora da visão costuma ser notada já nas primeiras 24 a 48 horas. A recuperação inicial leva 7 a 10 dias — período em que você evita esforços físicos intensos, não esfrega o olho e usa os colírios prescritos. A recuperação completa, com a visão totalmente estabilizada, acontece entre 4 e 6 semanas.

Durante essas primeiras semanas, é comum que a visão flutue um pouco ao longo do dia. Isso é esperado — a estabilização acontece aos poucos, e é por isso que a prescrição final de óculos (se for o caso) só é feita depois de pelo menos 4 semanas.

5. A catarata pode voltar depois da cirurgia?

A catarata em si não volta — o cristalino foi removido e substituído por uma lente artificial, que não opacifica. Mas em cerca de uma em cada cinco pessoas, a fina membrana que envolve a lente artificial pode ficar turva meses ou anos depois da cirurgia, causando visão embaçada parecida com a da catarata.

Quando isso acontece, o tratamento é simples: um laser de consultório limpa a membrana em poucos minutos, sem corte e sem internação. Não é a catarata voltando — é uma etapa a mais que às vezes aparece no caminho, fácil de resolver.

6. Vou precisar de óculos depois da cirurgia?

Depende principalmente do tipo de lente que você escolher. Existem cinco tipos principais de lente intraocular, cada um cobrindo as distâncias de um jeito diferente:

  • Lente monofocal: cobre muito bem uma única distância, normalmente a de longe. Para ler, a maior parte das pessoas continua usando óculos.
  • Lente monofocal otimizada: mantém a mesma qualidade de visão de longe da monofocal tradicional, mas com um pouco mais de alcance no meio caminho (tela de computador, painel do carro). Praticamente não causa halos à noite, e na maior parte dos casos é coberta pelo plano de saúde como monofocal. Para leitura de perto, os óculos continuam necessários.
  • Lente tórica: é uma variante que também corrige astigmatismo na mesma cirurgia. Pode ser combinada com qualquer um dos outros tipos de lente quando há astigmatismo a corrigir.
  • Lente de foco estendido: cobre longe e meio caminho (distâncias de computador, painel do carro). Para leitura de perto, alguns óculos leves ainda podem ser necessários.
  • Lentes multifocal e trifocal: cobrem mais distâncias (perto, meio caminho e longe), reduzindo bastante a dependência de óculos no dia a dia.

Não existe lente universalmente melhor. A escolha depende do seu olho, da sua rotina e do que você valoriza mais — e é conversada caso a caso na consulta. Tem um artigo só sobre isso aqui no blog.

7. Posso operar os dois olhos no mesmo dia?

Na prática, raramente, e só em situações específicas. O padrão é operar um olho por vez, com intervalo de 2 a 4 semanas entre eles. Isso é mais seguro por dois motivos:

  • Se aparecer qualquer intercorrência no primeiro olho, o segundo está protegido.
  • O resultado visual do primeiro olho serve de referência para pequenos ajustes no planejamento do segundo.

8. Quando posso voltar a dirigir?

Geralmente entre uma e duas semanas depois da cirurgia, dependendo de como o olho está reagindo e da avaliação do médico. O retorno à direção só é liberado quando a visão estiver adequada e os reflexos não estiverem comprometidos pelos colírios em uso.

É importante não antecipar por conta própria: nas primeiras semanas, a visão ainda está se estabilizando, e a dirigibilidade pode estar diferente do que você percebe subjetivamente.

9. Existe idade certa para fazer a cirurgia?

Não. A cirurgia de catarata pode ser feita em qualquer idade — do recém-nascido ao centenário — desde que exista indicação clínica. O critério não é a idade: é o impacto que a catarata está causando na sua qualidade de vida.

Bebês que já nascem com catarata, por exemplo, precisam ser operados nos primeiros meses de vida para evitar comprometimento do desenvolvimento da visão. No outro extremo, pessoas com 90 anos operam com frequência e com bons resultados, desde que a saúde geral permita.

10. Qual é a taxa de sucesso da cirurgia?

Muito alta. A cirurgia moderna de catarata é uma das mais bem-sucedidas da medicina: a literatura mostra que mais de 95% das pessoas sem outras doenças oculares alcançam boa qualidade de visão depois do procedimento.

Como toda cirurgia, o resultado depende de fatores específicos de cada olho — presença de outras condições como glaucoma, alterações da retina, córnea irregular. Por isso a avaliação pré-operatória é detalhada, e é ali que a expectativa de resultado é conversada individualmente. Nenhuma cirurgia oferece garantia de resultado, e a do catarata também não — mas, quando a indicação é bem feita, as chances de um bom desfecho são realmente altas.

11. O plano de saúde cobre a cirurgia?

Sim. Os planos de saúde regulamentados no Brasil são obrigados a cobrir a cirurgia de catarata e o implante da lente básica (monofocal). A regulamentação brasileira garante essa cobertura.

Lentes que cobrem mais distâncias — multifocal, trifocal, foco estendido — e a lente que corrige astigmatismo (tórica) geralmente não são cobertas pelo plano e têm custo adicional a parte. Vale confirmar diretamente com o seu plano quais são as coberturas específicas e eventuais carências antes da cirurgia.

12. Como me preparar para a cirurgia?

  • Fazer os exames pré-operatórios que o médico solicitar — medidas precisas do olho, avaliação da córnea e exame do fundo de olho.
  • Informar todos os remédios que você toma — alguns que afinam o sangue podem precisar ser ajustados com antecedência.
  • Seguir o jejum orientado antes da cirurgia (normalmente 4 a 6 horas).
  • Ter alguém de confiança para te acompanhar no dia da cirurgia e nos primeiros dias de recuperação.
  • Não usar maquiagem nem perfume no dia da cirurgia.
  • Seguir as instruções de colírios pré-operatórios, quando forem prescritos.

13. Quais são os riscos e complicações possíveis?

A cirurgia de catarata tem uma taxa de complicações graves baixa — menos de 1% dos casos, segundo a literatura. Nenhuma cirurgia é isenta de risco, e é importante conhecê-los antes de decidir. As intercorrências mais comuns costumam ser gerenciáveis:

  • Membrana atrás da lente que fica turva com o tempo: resolvida com laser no consultório, sem corte.
  • Aumento temporário da pressão dentro do olho: controlado com colírios nas primeiras semanas.
  • Inflamação pós-operatória: esperada e controlada com colírios anti-inflamatórios.
  • Inchaço temporário da parte central da retina (mácula): raro, e quando acontece é tratável com colírios.

Complicações mais sérias, como infecção grave dentro do olho, são raras — ocorrem em menos de uma em cada mil cirurgias. Justamente por serem possíveis, a preparação pré-operatória e o cuidado com os colírios no pós-operatório fazem diferença.

14. O que é facoemulsificação?

É a técnica moderna de cirurgia de catarata — a que fragmenta o cristalino opaco em partículas muito pequenas usando ondas de ultrassom, e depois as aspira. A incisão feita no olho é mínima (2 a 3 milímetros) e fecha sozinha, sem precisar de ponto.

É o método mais seguro, mais rápido e com menor tempo de recuperação disponível atualmente para cirurgia de catarata. O nome técnico dessa técnica é facoemulsificação, e ela é o que se entende hoje por "cirurgia de catarata moderna".

15. Quando é a hora de operar? Preciso esperar a catarata "amadurecer"?

Não — e esperar, na verdade, pode ser prejudicial. Esse conceito antigo de "deixar a catarata amadurecer" não se aplica mais à cirurgia moderna.

A indicação é feita quando a catarata começa a atrapalhar a sua vida: dificuldade para dirigir, para ler, para trabalhar ou para realizar atividades do dia a dia. Cataratas muito avançadas são tecnicamente mais difíceis de operar e podem ter resultado visual inferior. Por outro lado, não faz sentido operar por operar, antes da catarata estar afetando a rotina. O momento certo é quando o benefício da cirurgia é claramente maior do que o incômodo de conviver com ela — e essa conversa é o núcleo da consulta pré-operatória.

16. A cirurgia de catarata a laser é diferente da convencional?

Sim, com diferenças técnicas específicas. A cirurgia com laser de femtossegundo usa laser para fazer as etapas iniciais do procedimento — abrir a córnea, abrir a cápsula do cristalino e fragmentar parte dele — com precisão automatizada. A cirurgia convencional por facoemulsificação faz essas etapas manualmente, pelo cirurgião.

Os dois métodos são seguros e eficazes, e os resultados visuais finais são equivalentes em mãos experientes. O laser pode oferecer vantagens em casos específicos — quando há astigmatismo maior, quando a catarata é muito densa, ou quando o paciente vai usar uma lente premium. Na maioria dos casos, a técnica convencional entrega o mesmo resultado com custo menor.

Quando um paciente chega com medo, quase sempre é porque ninguém ainda teve tempo de explicar tudo com calma. Das 16 perguntas deste artigo, a maior parte é respondida em 10 minutos de consulta. Se você leu até aqui, já chegou adiantado: a gente usa esses 10 minutos para as perguntas que são só suas. — Dr. Leonardo Eloy · Cirurgião de catarata, Rio de Janeiro