Catarata é a perda gradual da transparência do cristalino — a lente natural que fica dentro do olho, logo atrás da íris (a parte colorida). Essa lente, que nasce cristalina, vai ficando turva com o passar dos anos e faz a visão parecer embaçada, como se fosse vista através de um vidro fosco. É a condição ocular mais comum a partir dos 60 anos, e o tratamento é cirúrgico: o cristalino opaco é substituído por uma lente intraocular permanente.
O que é a catarata — e por que o nome assusta mais do que deveria
Dentro de cada olho, logo atrás da íris, existe uma lente natural, do tamanho de uma lentilha, chamada cristalino. É uma estrutura transparente quando a gente nasce, feita basicamente de água e proteínas organizadas de forma muito precisa. A função dela é focar a luz que entra pelo olho, projetando uma imagem nítida na retina — do mesmo jeito que a lente de uma câmera fotográfica foca uma imagem no sensor.
Com o passar dos anos, essas proteínas do cristalino vão se desorganizando e se agrupando. A lente, que era transparente, começa a ficar turva em alguns pontos, depois em outros, até toda ela perder a clareza. É isso — e só isso — que se chama catarata. Não é uma película que cresce “por cima” do olho, como muita gente imagina. É a própria lente interna do olho que vai escurecendo devagar, por dentro.
Por ser um processo lento, a maioria das pessoas demora meses, às vezes anos, para perceber o quanto a visão mudou. O cérebro vai se adaptando. A pessoa troca o grau do óculos, aumenta a luz do abajur, evita dirigir à noite — e segue achando que é só cansaço. Até o dia em que alguma coisa específica deixa claro que está mais difícil: um rosto conhecido que não se reconhece mais na rua, o jornal que não se consegue ler mesmo com o óculos novo, o medo de descer uma escada em um lugar pouco iluminado.
Catarata é extremamente comum. Os dados da Organização Mundial da Saúde mostram que a catarata é responsável por cerca de metade dos casos de perda de visão no mundo — e é também a principal causa de perda de visão que pode ser revertida com cirurgia. No Brasil, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia estima que a maior parte das pessoas acima de 60 anos já tem algum grau de catarata, e a proporção sobe bastante a partir dos 70.
Por que a catarata acontece — os tipos mais comuns
Existe mais de um jeito da catarata aparecer. O mais comum, de longe, é o envelhecimento natural do cristalino. Mas há outros caminhos, e saber qual é o seu ajuda a entender o que esperar da cirurgia.
1. Catarata ligada à idade (a grande maioria)
É o tipo mais frequente — e o que a maioria das pessoas conhece como “catarata”. As proteínas do cristalino vão se degradando aos poucos pelo envelhecimento normal, e isso costuma começar a dar sintomas depois dos 60 anos. Aparece nos dois olhos, quase sempre — mas pode evoluir em ritmos diferentes, e é comum um lado incomodar mais do que o outro.
2. Catarata associada ao diabetes
Quem convive com diabetes há bastante tempo, especialmente sem bom controle, tem risco maior de desenvolver catarata mais cedo — às vezes antes dos 50 anos. O excesso de açúcar no olho afeta diretamente as proteínas do cristalino e acelera o processo de opacificação. Controlar bem o diabetes não faz a catarata desaparecer depois que ela começou, mas ajuda a reduzir a velocidade com que avança.
3. Catarata em quem usou corticoide por muito tempo
Corticoide — seja em colírio, comprimido ou injeção — é um remédio importante e necessário para muitas condições, mas quando usado por períodos longos pode causar uma forma específica de catarata, que costuma aparecer na parte de trás do cristalino. Ela às vezes evolui mais rápido do que a catarata comum e incomoda bastante a leitura e ambientes muito iluminados. Quem usa corticoide por motivo de saúde precisa de acompanhamento oftalmológico regular.
4. Catarata de quem leva uma pancada forte no olho
Um trauma — pancada, corte, explosão, corpo estranho — pode causar catarata logo em seguida ou apenas anos depois. É importante contar ao oftalmologista se já houve algum acidente desse tipo, mesmo que tenha sido décadas atrás.
5. Catarata que o bebê já traz ao nascer
Existe também a catarata congênita — presente ao nascimento ou nos primeiros meses de vida. É rara, mas merece diagnóstico precoce porque pode comprometer o desenvolvimento da visão se não for tratada a tempo. O teste do olhinho, feito nas primeiras semanas de vida, é justamente o exame que ajuda a identificá-la.
O que aumenta o risco de desenvolver catarata mais cedo
Envelhecer, por si só, já é o principal fator. Mas há coisas que antecipam ou aceleram o processo — e, olhando para essa lista, vale ter em mente que os fatores se somam:
- Idade acima de 60 anos: é o fator mais importante. Não é uma doença rara nem um sinal de algo errado — é parte do processo natural de envelhecimento do olho.
- Diabetes de longa data: quanto mais tempo e menos controle, maior a chance de catarata aparecer mais cedo.
- Exposição solar prolongada sem proteção ultravioleta: a radiação ultravioleta acumulada ao longo de décadas danifica as proteínas do cristalino. Óculos de sol com filtro UV, usados desde jovem, ajudam.
- Uso prolongado de corticoide: colírio, comprimido ou injeção, por períodos longos.
- Cigarro: a literatura mostra que pessoas que fumam têm risco bem maior de desenvolver catarata — e também de ter catarata mais difícil de operar.
- Histórico familiar de catarata precoce: quando pai, mãe ou irmão já tiveram catarata jovem, a predisposição pode ser herdada.
- Trauma ocular antigo: mesmo pancadas de décadas atrás podem deixar marcas que favorecem a catarata no futuro.
- Outras doenças do olho: inflamações crônicas dentro do olho (uveítes) e alguns tipos de glaucoma aumentam o risco.
Os sinais de que a catarata está atrapalhando
Catarata raramente dá um sinal único e dramático. Ela vai chegando por camadas, e os primeiros sintomas costumam ser sutis. Reconhecer esses sinais — de preferência antes deles se tornarem limitantes — é o que permite decidir o momento da cirurgia com calma, e não com pressa.
Visão embaçada como se fosse vista através de um vidro fosco
É o sintoma mais característico. As imagens parecem desfocadas de um jeito constante, como se houvesse sempre uma névoa leve sobre tudo. Limpar o óculos não resolve, porque o problema não está lá fora — está dentro do olho, no cristalino.
Sensibilidade maior à luz e ao brilho
Ambientes muito iluminados começam a incomodar. A luz do sol bate e parece muito mais forte do que antes. E, à noite, os faróis dos carros que vêm em direção contrária parecem ofuscar. Quem dirige costuma notar isso em primeiro lugar.
Halos em volta das luzes à noite
Uma auréola, como se fosse um anel luminoso, aparece em volta de lâmpadas e faróis. Isso acontece porque a luz, ao passar por um cristalino turvo, se espalha de forma diferente.
Cores que parecem mais apagadas ou amareladas
É um sintoma que a pessoa só percebe quando compara os dois olhos — ou depois da cirurgia de um deles. De repente fica claro que as cores estavam realmente mais foscas. Branco já não é branco, é bege claro. Azul já não é azul vivo, é meio cinza.
Troca frequente de óculos sem sentir melhora real
O grau vai mudando, o óculos novo ajuda por um tempo e logo já não basta. Essa sucessão de receitas, em intervalos cada vez menores, é um sinal importante — significa que a visão está piorando por dentro do olho, e não só pela necessidade de óculos.
Dificuldade específica para enxergar à noite
A visão noturna piora antes da visão diurna. Dirigir à noite, ler o nome das ruas com pouca luz, descer escadas em ambientes pouco iluminados — essas atividades começam a parecer mais difíceis do que eram há um ou dois anos.
Um detalhe importante: quase todos esses sintomas também podem aparecer por outras razões — problemas na retina, mudanças no grau que ainda podem ser corrigidas com óculos, olho seco, entre outras. Por isso a avaliação com oftalmologista é o que separa uma coisa da outra. Não dá para saber por conta própria.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico da catarata é feito durante a consulta, com exames simples e indolores. O oftalmologista já consegue ver a catarata no primeiro exame — e, na mesma consulta, avalia o quanto ela está atrapalhando e se há outras condições junto.
- Medida da visão com a tabela de letras: é o exame básico, que mostra o quanto você está enxergando com e sem óculos (chamado de acuidade visual). Quando mesmo com o melhor óculos possível a visão não chega ao nível esperado, é um sinal objetivo de que alguma coisa está atrapalhando por dentro do olho.
- Exame do cristalino com microscópio de consultório: o oftalmologista olha a parte da frente do olho com um microscópio especial, que fica na própria sala da consulta (o nome técnico é biomicroscopia com lâmpada de fenda). É nesse exame que ele vê o cristalino com muito aumento, avalia o grau da catarata e identifica o tipo.
- Mapeamento de retina: o oftalmologista coloca colírios que dilatam a pupila e examina o fundo do olho. É um exame essencial — porque, mesmo com catarata evidente, é preciso saber se a retina está saudável antes de planejar qualquer cirurgia. Uma catarata resolvida em um olho com problema grave de retina não melhora a visão como se espera.
- Medida do olho para cálculo da lente intraocular: quando existe indicação cirúrgica, é feito um exame chamado biometria ocular, que mede o comprimento do olho com muita precisão. Esse cálculo determina a potência da lente que vai substituir o cristalino — e é o que decide, do lado numérico, qual será o grau do olho depois da cirurgia.
Algumas cataratas são visíveis até a olho nu — a pupila parece esbranquiçada. Mas a maioria, especialmente as iniciais e intermediárias, não aparece assim. Muita gente chega ao consultório dizendo “os meus olhos estão normais, o problema deve ser outro” — e sai entendendo que a catarata já está lá faz tempo.
Quando faz sentido operar — e o mito da “catarata madura”
Essa é provavelmente a pergunta mais importante do artigo inteiro, e também a mais mal explicada por aí. Durante décadas se falou que era preciso “esperar a catarata amadurecer” para operar. Esse conselho vem de uma época em que a cirurgia era feita de outra forma — muito mais invasiva — e em que fazia sentido esperar a catarata chegar a um estágio bem avançado antes de intervir.
Hoje isso mudou completamente. A cirurgia moderna de catarata é feita com equipamentos de alta precisão, por meio de micro-incisões, com recuperação rápida. E ela funciona melhor — tem menos complicações e resultado mais previsível — quando a catarata ainda não está muito avançada. Cataratas muito maduras deixam o cristalino endurecido e tornam a operação tecnicamente mais difícil, com mais riscos.
Na prática, o momento certo para operar não é definido por um número — nem pela nota no exame de visão, nem pela aparência da catarata no microscópio. O momento certo é quando a catarata começa a atrapalhar atividades que importam para você. Pode ser dirigir à noite. Pode ser ler o jornal de manhã. Pode ser reconhecer os rostos dos netos do outro lado da mesa. Cada pessoa tem um ponto diferente, e a decisão é tomada junto — médico e paciente — olhando o que está em jogo.
Alguns sinais concretos costumam orientar a conversa sobre o momento da cirurgia:
- A visão deixou de melhorar com a troca de óculos.
- Dirigir à noite se tornou inseguro por causa do ofuscamento dos faróis.
- Ler, usar o celular ou trabalhar ficou difícil mesmo com boa iluminação.
- Atividades do dia a dia — cozinhar, descer escadas, reconhecer pessoas — estão sendo evitadas por causa da visão.
- Os dois olhos têm diferença importante de visão, o que atrapalha a percepção de profundidade.
Nada disso, sozinho, obriga a operar. Mas, quando dois ou três estão presentes, costuma ser o momento de conversar abertamente sobre a cirurgia — sem empurrão comercial, sem urgência artificial, e com a informação clara de que o resultado final depende de fatores específicos do seu olho e da escolha da lente certa.
A pergunta que me fazem mais vezes é “doutor, já está madura?”. Eu sempre devolvo a pergunta: “isso está te atrapalhando?”. Se está, a gente conversa sobre operar. Se não está, a gente olha de novo daqui a seis meses, a um ano. Catarata não precisa ser tratada com pressa — precisa ser tratada na hora em que, para aquela pessoa, faz diferença. E eu prefiro explicar isso com calma do que ver mais alguém chegar aqui achando que tem que esperar ficar quase sem enxergar. — Dr. Leonardo Eloy · Cirurgião de catarata, Rio de Janeiro
Perguntas frequentes
Não. Esse é um dos mitos mais comuns sobre catarata, e vem de uma época em que a cirurgia era feita de outra forma. Hoje, quanto mais cedo a catarata é operada — dentro do momento em que a visão já começa a atrapalhar a rotina — mais simples e previsível é a cirurgia. Catarata muito avançada deixa o cristalino mais duro e torna a operação tecnicamente mais difícil, com maior chance de complicações. Não existe mérito em esperar.
Não. A literatura não mostra nenhum medicamento — colírio, comprimido, suplemento — capaz de reverter ou parar a opacificação do cristalino uma vez que ela começa. O único tratamento eficaz é a cirurgia, em que o cristalino opaco é substituído por uma lente intraocular. Qualquer produto vendido como “colírio para catarata” não tem respaldo científico.
A catarata em si não volta, porque o cristalino foi removido. O que pode acontecer, meses ou anos depois, é a parte de trás da cápsula que segura a nova lente ficar turva — é a chamada opacificação de cápsula posterior, e muitas pessoas se referem a isso como “catarata secundária”. Quando atrapalha, resolve em poucos minutos com um laser no consultório, sem cirurgia, sem anestesia injetada.
Não. É muito mais comum a partir dos 60 anos — por isso é associada à terceira idade —, mas pode acontecer em qualquer idade. Algumas pessoas desenvolvem catarata mais cedo por diabetes, uso prolongado de corticoide, traumas no olho, certas doenças oculares ou predisposição familiar. Bebês também podem nascer com catarata (catarata congênita), e nesses casos a avaliação precisa acontecer nos primeiros meses de vida.