A catarata é a opacificação progressiva do cristalino, a lente natural do olho. Acontece principalmente com o envelhecimento, e pode tornar a visão turva, com cores desbotadas e dificuldade à noite. O tratamento é cirúrgico — e a indicação leva em conta sintomas, exame e rotina, não apenas a idade ou o estágio da catarata.
A catarata não é uma corrida contra o tempo. Ela evolui em meses — às vezes em anos.
Se a visão começou a embaçar, se as cores parecem mais apagadas, se dirigir à noite ficou desconfortável, faz sentido entender o que está acontecendo antes de qualquer decisão. Este artigo reúne o que costuma aparecer numa consulta sobre catarata: o que é, por que acontece, como se identifica e quando o tratamento entra em pauta. A ideia é que você termine a leitura com mais clareza para conversar com seu oftalmologista — não com mais ansiedade.
Muita gente chega ao consultório preocupada porque "ouviu falar" que precisa operar logo, ou porque não consegue mais ler o rótulo do remédio, dirigir com tranquilidade ou ver o rosto dos netos com nitidez. A catarata, na maior parte dos casos, permite avaliação antes da decisão. Essa avaliação é parte do tratamento.
O que é a catarata
O cristalino é uma lente transparente, localizada atrás da íris (a parte colorida do olho). Sua função é focar a luz na retina para que enxerguemos com nitidez. Com o envelhecimento — e, em alguns casos, por outras causas —, as proteínas que formam o cristalino se agrupam, e a lente vai ficando opaca.
O resultado é uma visão turva, parecida com enxergar através de um vidro embaçado. Diferente do que muita gente imagina, a catarata não é uma película que cresce por cima do olho — a opacificação acontece dentro do próprio cristalino.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a catarata está entre as principais causas de perda visual em adultos no mundo, e a maior parte desses casos é reversível com tratamento adequado (OMS — Vision Atlas, iapb.org/vision-atlas). No Brasil, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) descreve a catarata relacionada à idade como uma condição comum a partir dos 60 anos, com prevalência crescente nas décadas seguintes (CBO, cbo.net.br).
Quando você sai da consulta sabendo o que está acontecendo com o seu olho — esse é o objetivo. Em alguns casos, isso significa indicar a cirurgia. Em outros, significa explicar por que ainda não é hora. — Dr. Leonardo Eloy Sousa · CRM-RJ 52-96841-2 · RQE 26.151
Tipos de catarata
A catarata pode ser classificada pela região do cristalino onde a opacificação aparece e pela causa. Os tipos abaixo são os mais comuns na prática clínica.
1. Catarata senil
É a forma mais comum, ligada ao envelhecimento. Costuma aparecer a partir dos 60 anos, evolui de forma gradual e geralmente afeta os dois olhos — embora cada olho possa progredir em ritmo diferente.
2. Catarata subcapsular posterior
Localiza-se na parte de trás do cristalino. Aparece com mais frequência em pessoas que usaram corticoides por muito tempo (colírios, comprimidos ou injeções) e em pacientes com diabetes. Tende a evoluir mais rápido, e os primeiros sintomas costumam ser dificuldade para ler e desconforto com luz forte.
3. Catarata nuclear
Afeta o núcleo central do cristalino. Tem associação clara com envelhecimento e tabagismo. Em alguns casos provoca uma "segunda visão" temporária — a pessoa volta a ler de perto sem óculos por um período — antes de a visão piorar.
4. Catarata cortical
Afeta as camadas externas do cristalino, com um padrão de opacificação parecido com raios. Está associada à exposição solar prolongada e ao diabetes.
5. Catarata congênita
Está presente desde o nascimento ou aparece nos primeiros meses de vida. Pode ser hereditária, decorrente de infecções durante a gestação (como rubéola e toxoplasmose) ou de causa não identificada. Demanda avaliação rápida para preservar o desenvolvimento visual.
6. Catarata traumática
Surge depois de um trauma no olho — impacto, corte ou lesão química. Pode aparecer logo depois do evento ou anos mais tarde.
Causas
A causa principal é o envelhecimento natural do cristalino. Outros fatores podem antecipar ou acelerar o processo:
- Idade: o risco aumenta com o passar dos anos, especialmente a partir dos 60.
- Diabetes: o excesso de glicose no cristalino acelera a opacificação.
- Exposição solar sem proteção: a radiação ultravioleta age sobre as proteínas do cristalino ao longo da vida.
- Uso prolongado de corticoides: colírios, comprimidos ou injeções de corticoide aumentam o risco.
- Tabagismo: fumantes têm risco maior de desenvolver catarata em comparação com não fumantes (American Academy of Ophthalmology, aao.org).
- Histórico familiar: existe predisposição genética para opacificação mais precoce.
- Traumas oculares: lesões físicas ou químicas no olho.
- Outras condições oculares: glaucoma, uveíte e outras inflamações intraoculares podem favorecer o quadro.
- Infecções na gestação: algumas doenças durante a gravidez podem causar catarata congênita.
Sintomas
Os sintomas da catarata aparecem aos poucos. Justamente por serem graduais, muita gente se acostuma à perda visual sem perceber a dimensão. Os sinais mais frequentes são:
- Visão turva ou embaçada: as imagens parecem desfocadas, como enxergar através de uma névoa constante.
- Sensibilidade à luz: desconforto em ambientes muito iluminados; faróis de carros à noite parecem ofuscantes.
- Halos ao redor das luzes: auréolas em torno de lâmpadas e faróis, principalmente à noite.
- Dificuldade para enxergar à noite: a visão noturna piora aos poucos.
- Cores menos vibrantes: tons amarelados, sensação de que as cores "perderam a cor".
- Visão dupla em um olho só: ver imagens duplicadas com apenas um olho aberto pode estar associado à catarata nuclear.
- Troca frequente de óculos: necessidade de aumentar o grau com frequência, sem alívio claro.
Se você reconhece um ou mais desses sinais, faz sentido marcar uma avaliação. Não para correr — para entender.
Como o oftalmologista identifica a catarata
O diagnóstico é feito durante a consulta, com exames que avaliam o cristalino e o restante do olho. Os mais usados são:
- Biomicroscopia com lâmpada de fenda: permite visualizar o cristalino com aumento e identificar onde está a opacificação e qual a sua intensidade.
- Acuidade visual (tabela de Snellen): mede o quanto a pessoa enxerga com e sem correção.
- Mapeamento de retina: avalia o fundo do olho. É importante para planejar a cirurgia e identificar outras condições que podem estar associadas.
- Biometria ocular: mede o comprimento do olho para ajudar no cálculo da lente intraocular, caso a cirurgia seja indicada.
Vale lembrar: a catarata nem sempre é visível a olho nu. Mesmo casos iniciais, sem alteração aparente na pupila, podem causar sintomas importantes.
Quando faz sentido operar
Em catarata, "o quanto antes" raramente é a resposta certa. A maturidade do cristalino é só um dos fatores que pesam na indicação. O ponto não é tempo de espera — é o impacto da catarata na sua vida.
A cirurgia entra em pauta quando a catarata começa a interferir nas atividades importantes do dia a dia. Por exemplo:
- Dirigir deixou de ser confortável ou seguro.
- Ler, trabalhar ou usar tela ficou cansativo demais.
- Atividades simples geram insegurança visual.
- A troca de óculos não resolve mais.
Existe um mito antigo de que é preciso esperar a catarata "amadurecer" para operar. Não é assim. Cataratas muito avançadas costumam ser tecnicamente mais difíceis de operar. Em geral, indicar a cirurgia no momento em que ela faz sentido — nem antes, nem tarde demais — é o caminho mais sensato.
A decisão também leva em conta a sua rotina, suas expectativas e o que o exame mostra. Cada olho é diferente. O resultado depende de muitos fatores, e a conversa honesta sobre isso faz parte do processo. Quando ainda não é hora, o papel do médico é dizer também.
O ponto que quase ninguém percebe quando agenda a primeira consulta é este: a catarata, com frequência, se anuncia primeiro fora do consultório. Halos ao redor dos faróis numa estrada à noite, a luz da manhã que parece menos viva, o cardápio do restaurante que exige inclinar a cabeça de um jeito novo — esses sinais cotidianos costumam aparecer anos antes de o exame de rotina mostrar perda de acuidade no quadro de Snellen. Não porque o exame falhe, mas porque ele mede uma coisa (a resolução em ambiente claro, padronizado) e a catarata afeta antes outra (a sensibilidade ao contraste, que decide como o olho funciona no mundo real). Quando a sensação é de que algo mudou e o exame diz que está tudo bem, geralmente é porque está mesmo — só que numa dimensão que o teste tradicional ainda não capturou.
Por isso a literatura atual de cirurgia de catarata (consensos ESCRS; testes de sensibilidade ao contraste como Pelli-Robson e CSV-1000) orienta a indicação pela queixa funcional — o impacto real da catarata na sua vida — e não apenas pelo grau medido em consultório.
Por isso, antes da pressa de operar ou da resistência de adiar, vale a conversa de avaliação: medir o que precisa ser medido, ouvir o que o seu dia a dia está dizendo e, juntos, definir se — e quando — a cirurgia entra em pauta. A decisão é sua. A clareza é parte do meu trabalho.
Visão é decisão. E decisão exige tempo, dado e confiança.
Perguntas frequentes
Não. Não há medicamento — colírio, comprimido ou suplemento — que reverta ou interrompa a progressão da catarata. O tratamento é cirúrgico: o cristalino opaco é substituído por uma lente intraocular.
A catarata em si não volta. O que pode acontecer, com o tempo, é uma opacificação da membrana que segura a lente intraocular — chamada de opacificação capsular. Quando ocorre, é resolvida em consultório, em poucos minutos, com laser. É comum, é esperado em parte dos casos, e não é uma "nova catarata".
Não. Esse é um dos mitos mais antigos sobre catarata. A indicação cirúrgica considera o quanto a catarata está atrapalhando a sua visão e a sua rotina, não o quão "madura" ela está. Cataratas muito avançadas tendem a ser tecnicamente mais desafiadoras.
Não. Óculos corrigem o foco, não causam dependência nem aceleram a evolução da catarata. Se o grau muda com frequência, isso pode ser um sinal de evolução do quadro — não uma consequência do uso dos óculos.
Sim, se não for tratada. A catarata é descrita pela OMS como uma das principais causas de cegueira evitável no mundo — "evitável" porque, com a cirurgia, a visão pode ser recuperada. Em estágios extremos, cataratas hipermaduras podem causar inflamações e aumento da pressão intraocular, com risco de complicações mais sérias.
Não. É bem mais comum a partir dos 60 anos, mas existem cataratas em bebês (congênita), em adultos jovens (por trauma, diabetes ou uso prolongado de corticoides) e em pessoas que tiveram cirurgia ocular prévia.