A vitrectomia é uma cirurgia para tratar doenças graves da retina — a camada de tecido no fundo do olho responsável por captar a luz e formar a imagem. Nela, o cirurgião de retina remove o gel transparente que preenche o interior do olho — chamado humor vítreo — e acessa diretamente a retina para tratar o que estiver comprometido. É o principal recurso cirúrgico para casos de descolamento de retina, sangramento dentro do olho, membranas que distorcem a visão e buracos na parte central da retina.

O que é o vítreo — e por que removê-lo

O interior do olho, atrás da lente natural, é preenchido por um gel transparente e levemente viscoso chamado humor vítreo. Esse gel representa cerca de dois terços do volume do olho e tem uma função estrutural: mantém o olho esférico e, durante toda a infância, ajuda a segurar a retina encostada na parede do fundo do olho enquanto o olho cresce.

Na vida adulta, o vítreo começa a se liquefazer gradualmente. Essa mudança é natural e é por isso que as "moscas volantes" — os pequenos pontos e fios que às vezes cruzam o campo visual — são mais comuns a partir de certa idade. Em algum momento, o vítreo também se separa da retina, num processo chamado de descolamento posterior do vítreo. Para a maioria das pessoas, essa separação acontece sem consequências. Mas em algumas situações, o vítreo se separa de forma incompleta, puxa a retina, ou começa a acumular sangue ou membranas — e é aí que o problema começa.

A vitrectomia resolve esse problema removendo o gel vítreo do caminho. Sem o vítreo, o cirurgião consegue acessar a retina diretamente com instrumentos muito finos, tratar o que precisa ser tratado e, se necessário, colocar um tamponamento — gás ou óleo de silicone — para ajudar a retina a se fixar enquanto cicatriza.


Para quais condições a vitrectomia é indicada

A vitrectomia não é uma cirurgia de "fim de linha" — é a abordagem cirúrgica padrão para uma série de condições da retina que não respondem a tratamentos menos invasivos. Estas são as principais:

Descolamento de retina

Acontece quando a retina se separa da parede do fundo do olho. A causa mais comum é um buraco ou rasgo na retina por onde o fluido penetra e levanta o tecido. Sem tratamento, o descolamento avança e pode resultar em perda visual permanente — por isso a avaliação deve ser feita com brevidade quando os sintomas aparecem (flashes de luz, chuva de pontos novos, sombra no campo visual). A vitrectomia reposiciona a retina, sela o buraco e usa gás para mantê-la no lugar durante a cicatrização.

Hemorragia vítrea

É quando sangue se acumula dentro do gel vítreo — o que torna a visão turva, com sombras vermelhas ou negras, e em casos graves pode bloquear completamente a visão. As causas mais comuns são a retinopatia diabética avançada (quando vasos frágeis criados pelo diabetes sangram espontaneamente) e o descolamento de retina com rotura de vaso. A vitrectomia remove o sangue, restaura a transparência do meio e permite tratar a causa do sangramento ao mesmo tempo.

Membrana epirretiniana

Uma película fina de tecido fibroso que se forma sobre a superfície da retina, na parte central. Essa membrana puxa e enruga a retina, causando visão distorcida — as linhas retas parecem onduladas, os rostos ficam borrados, a leitura se torna difícil. Em casos de comprometimento visual significativo, a vitrectomia remove essa membrana e, em geral, melhora gradualmente a qualidade da visão nos meses seguintes.

Buraco macular

Uma abertura que se forma na parte central da retina — chamada mácula —, onde a visão de detalhe e de cores está concentrada. A pessoa nota uma mancha escura ou distorcida bem no centro do que olha. A vitrectomia fecha o buraco usando gás como tamponamento, o que exige um posicionamento específico — geralmente de bruços — por alguns dias depois da cirurgia para que o gás pressione a região central e ajude na cicatrização.

Casos complexos de descolamento com óleo de silicone

Em descolamentos de retina mais complexos — com múltiplos buracos, membranas que puxam o tecido de vários lados, ou retina muito fina — o gás pode não ser suficiente. Nesses casos, o cirurgião usa óleo de silicone como tamponamento. O óleo permanece no olho por meses, até a retina cicatrizar, e depois é removido em uma segunda cirurgia. Este artigo explica o que é a vitrectomia; se você precisa entender especificamente sobre a retirada do óleo, leia este artigo dedicado ao tema.

Como funciona a cirurgia, de forma geral

A vitrectomia moderna usa instrumentos muito finos — com menos de um milímetro de espessura — que entram no olho por três pequenas aberturas feitas na parte branca do olho, numa região chamada pars plana (a porção do olho antes da retina). Por essas aberturas, o cirurgião introduz:

  • Uma fonte de luz — para iluminar o interior do olho durante toda a cirurgia.
  • Um instrumento de corte e aspiração — chamado vitreótomo, que corta o vítreo em pequenos fragmentos e os aspira.
  • Uma linha de irrigação — que mantém a pressão intraocular e o volume do olho enquanto o vítreo é retirado.
  • Outros instrumentos — pinças, tesouras, lasers — conforme o que a cirurgia exige.

O cirurgião opera sob ampliação do microscópio, visualizando o interior do olho com clareza. A cirurgia dura entre quarenta minutos e duas horas, dependendo da complexidade do caso. É realizada com anestesia — local com sedação na maioria dos casos, ou anestesia geral quando necessário — e a pessoa fica acordada ou levemente sedada, sem dor.


Gás ou óleo de silicone: o tamponamento pós-vitrectomia

Após remover o vítreo e tratar a retina, o cirurgião precisar preencher o interior do olho com algo. Em muitos casos, a solução salina usada durante a cirurgia já é suficiente. Mas quando a retina precisa de suporte adicional para cicatrizar — como num descolamento ou num buraco macular —, é usado um tamponamento.

Existem dois tipos principais:

  • Gás (SF6 ou C3F8) — uma bolha de gás que se expande levemente e pressiona a retina de dentro para fora. É reabsorvida pelo próprio olho ao longo de semanas (o SF6 dura de 10 a 14 dias; o C3F8 pode durar até dois meses). Enquanto há gás, a visão está bastante comprometida — é como ver por dentro de uma bolha. E, enquanto há gás, não é possível viajar de avião: a altitude pode fazer o gás se expandir e elevar perigosamente a pressão do olho.
  • Óleo de silicone — um líquido viscoso que permanece no olho por meses e precisa ser retirado em cirurgia posterior. É usado em casos mais complexos onde o gás não oferece suporte suficiente. Com óleo, a visão no período de tamponamento é mais funcional do que com gás — mas ainda bastante diferente do normal.

"O que mais surpreende as pessoas antes da cirurgia é descobrir que o vítreo pode ser removido sem que o olho deixe de funcionar. Eu explico assim: o vítreo é como um estofamento — ele dá forma, mas a função real de ver é da retina. Você pode trocar o estofamento sem perder a estrutura. O que não dá para perder é a retina."

— Dr. Leonardo Eloy

O que determina o resultado visual após a cirurgia

O resultado visual depois de uma vitrectomia depende principalmente de dois fatores: qual era a condição da retina antes da cirurgia, e quanto tempo demorou para tratar.

Num descolamento de retina que ainda não chegou à parte central (a mácula), o resultado visual costuma ser muito bom — a visão pode voltar próxima ao que era antes. Quando a parte central já estava descolada, o resultado é mais variável: a retina cicatriza, mas a recuperação da agudeza visual pode ser parcial. Por isso, a rapidez na avaliação importa.

Num buraco macular ou numa membrana epirretiniana, a cirurgia fecha o buraco ou remove a membrana, mas a melhora visual acontece gradualmente — ao longo de semanas a meses — enquanto a retina se reorganiza. Resultados definitivos costumam ser avaliados entre seis meses e um ano após a cirurgia.

Em hemorragias vítreas por diabetes, a cirurgia remove o sangue e trata a doença da retina que causou o sangramento, mas o resultado visual final depende do quanto a retina já estava comprometida pela doença de base antes do episódio agudo.

Dúvidas frequentes

A vitrectomia é uma cirurgia especializada que exige treinamento específico em retina, mas em mãos experientes é um procedimento bem estabelecido com taxas de complicação baixas. O risco existe — como em toda cirurgia — e é individualizado: depende da doença tratada, do estado da retina antes da cirurgia e de condições sistêmicas do paciente. Em alguns casos, como o descolamento de retina por buraco, a cirurgia é indicada justamente porque o risco de não operar é muito maior do que o risco da cirurgia em si. A conversa pré-operatória com o cirurgião é o momento de entender os riscos e os benefícios para o seu caso específico.

Na grande maioria dos casos, não. A vitrectomia moderna é realizada em regime ambulatorial — você chega, opera e vai para casa no mesmo dia ou na manhã seguinte, dependendo do horário do procedimento e do protocolo do serviço. Quando gás ou óleo de silicone é usado para tamponar a retina, as restrições de posicionamento começam imediatamente após a cirurgia, mas o cumprimento delas é feito em casa, não internado. Uma acompanhante ou familiar precisa estar presente para o transporte de volta.

Não enquanto há gás no olho. A altitude pressurizada de cabines de avião pode fazer o gás se expandir dentro do olho e causar um aumento perigoso de pressão. A proibição de voo se mantém até o gás ser reabsorvido completamente — o que pode levar de algumas semanas a alguns meses, dependendo do tipo de gás usado. O cirurgião vai indicar exatamente quando a liberação ocorre, com base no exame de retorno. Com óleo de silicone, a restrição de voo não se aplica da mesma forma, mas cada caso é avaliado individualmente.

Não da forma original. O gel vítreo não se regenera. Na vitrectomia, ele é removido e substituído por solução salina, gás ou óleo de silicone, dependendo do caso. Com o tempo, o olho produz humor aquoso que ocupa esse espaço e mantém a pressão e a forma do olho. A ausência do vítreo original não compromete a visão em si — o que determina a qualidade visual é a integridade da retina, especialmente sua parte central.